Wednesday, April 15, 2015



Demoraste. Onde estiveste? Nem eu mesma sei. Perdida, suponho. Ausente. Contava que me soubesses dizer onde. Nem eu própria sei. Vaguei por ruas sem placas, à moda portuguesa, caí em buracos que outrora eram pequenas imperfeições no alcatrão. Pode-se dizer que me esfolei bem, mas nem doeu. Quando se está anestesiada, qualquer parábola se ouve. Nem teria forças para gritar, se assim o quisesse, era apenas uma boneca insuflável furada, inútil, terminada a festa, cessados os gritos, finda a bebida…
Mas tiveste medo? Só de mim, apenas e exclusivamente de mim. Os outros eram só sombras, sombras que deviam ser coloridas talvez, mas que não passavam de esboços crepitantes no meu subconsciente. Na realidade, fiz a viagem sozinha. Ninguém me acompanhou, ninguém me deu a mão quando senti frio, quando implorei pela Morte, que teimou em não vir. Deve ser preguiçosa, só pode. Aquela ceifa de Inverno deve ser cansativa, demasiados idosos a definhar com pneumonias, não há esperança de vida que os livre desses bicharocos que teimam em encharcar pulmões e rir-se de nós. Não percebo… Se não tinhas dor, porquê partir? Ah, boa pergunta… O estupor não é assim tão interessante quanto isso, ao fim de um dia ou dois, cansa, desfaz os ossos. Nunca fui de caminhar sem rumo, sem objectivo, mas era tudo quanto aquele vazio me podia ofertar. Apenas passos ocos para nenhures. Apenas suor sem frutos. Apenas movimento, em círculos apertados, dentro das pontes da minha mente. Ninguém quer um destino destes… Muito melhor seria uma praia com refrescos e palmeiras simétricas. Descer ao inferno e voltar dele não tem muita saída nas agências de viagens. É preciso alguém de gosto requintado. Ou então, uma alma em cissão, exaurida da vida, como a minha. Porquê? Não sabes? Lá se vai a teoria da omnipresença… É simples, fiz do meu passado o meu futuro. Que resposta mais estranha. Assim é, mas o Nobel da simplicidade nunca me atraiu.
Mas sobreviveste… Sim, mas às vezes sonho com aquela caverna… Caverna, que caverna? Caverna, rua sem fim, inferno, tanto faz, é tudo uma alegoria, na realidade não houve nada, nem caminho, nem sombras, nem frio, só eu esquecida dentro dos despojos da minha mente, a ganhar pó, a apodrecer por dentro, até ficar fora de validade… Não houve nenhuma revelação, não houve um dilúvio para salvar a minha honra, apenas memórias já frias, enfiadas à pressão numa bela gaveta, decorada com viciantes papoilas, para esconder a mais bela parte da minha vida. Ou talvez minta. Pensando melhor, espetei-me, sempre cheia de graciosidade, num espelho. O que mais poderia ser, melhor “cliché” não se arranjava, mas odisseias mentais não se discutem, não mentiria duas vezes. Dentro daquele vidro polido, a devolver-me um olhar de inocência, estava a criatura mais desgraçada em que já pus a vista em cima. Vi-me desolada, desfiando a minha carne lentamente, como se fosse um monte de lã, a expressão derretida, uma boca disforme mastigando uma dor insuportável, que se tornara a minha própria razão de viver. E disse basta. Tão simples quanto isso. Chocalhei-me, refresquei as ideias e os modos, abri a porta daquela caverna, e fugi da corda que me queria abocanhar. E vi o mundo. Bem ali, a piscar-me o olho. Hesitei. Talvez hibernada nos meus lençóis estivesse melhor… Subitamente o meu coração de velha assustou-me. Bateu. Timidamente, como quem se esqueceu. E depois mais e mais… Quando se está vivo, torna-se mais fácil o primeiro passo.
O horizonte rasgou-se à minha frente como um postal, as cores injectaram-me as veias e o presente apertou-me a mão com força, bem-vinda, porque demoraste tanto? Chorei o meu passado e esqueci o meu futuro; não mais me acorrento a um tempo que não o momentâneo. Deixei que as minhas utopias me extorquissem toda a energia, que o meu olhar se fosse debruçando cada vez mais dentro… Jamais! Não sou uma vitrina de antiguidades, sou uma emoção movimentada, livre para correr todos os presentes que entender.

Acabaram-se os círculos fechados, as redomas, os labirintos, chutei tudo isso para um canto, encontrei-me perdida naquela caverna, mesmo a tempo de viver. Pelo sim, pelo não, vou mandá-la demolir.

Janeiro, 2011



Não posso jurar nunca mais curvar-me sobre mim mesma,
quando a solidão, velha amiga, me inundar a casa
ou quando o silêncio me gritar ao coração desalentado...
Não posso prometer que os dias em que cada passada parece sobre chamas se extingam...
Mas posso enxotar as lágrimas mais rápido, retocar a penugem da minha mente alada,
e oferecer a mim mesma esta certeza:
o sofrimento só vive em mim enquanto tiver a porta aberta!

E um dia eu irei fechá-la para sempre...oh se vou!

Saturday, April 11, 2015


Somos meros besouros
que em torno da luz rodopiam
(e logo se precipitam).
Somos almas aladas
que, voando, os limites do céu alcançam
(e logo se despenham).

Pudessem os fados alinhar-se,
tombando...
Pudesse a vida resvalar-se,
endireitando...
Esgotaram-se-me as cartas de mendiga...
Como farei agora para ser amada?


2014-07-18

Sunday, May 11, 2014


Eis-me aqui,
numa janela sem pórtico sentada,
meus olhos vidrados espreitando o mundo;
na orla do abismo permaneço parada,
invejando a vida que se espraia lá no fundo.

Trai-me o "não",
ampara-me o "sim",
tenta-me a queda, o chão,
o salto, o vôo, o fim...

Esqueço, por fim, a retaguarda,
os medos idos, as bestas espelhadas.
Dos lençóis faço asas de alvorada
e lanço-me, rugindo, às ondas entrecortadas.


2014/05/08

Sunday, February 23, 2014



"- Olá, tiveste saudades minhas?"
- Cala-te.
"- Então, isso é lá maneira de falar comigo, tua velha amiga?"
- Deixa-me.
"- Não te posso abandonar."
(Tapo os ouvidos com força.)
"- Não vale a pena fugires-me. Já devias saber isso. Menina tonta."
- Vai embora.
"- Nunca."
- Por favor.
"- Não."
(Caio.)
"- És uma fraca. Só a mim pertences."
- N...ão...
"- Não? Então olha em volta."
- Não!
"- Olha lá em volta, princesinha, olha e vê onde estás!"
(Abraço os joelhos com força, de olhos bem fechados, balançando o corpo.)
- Não, não, nãããão!
"- Não olhas? Pois eu digo-te o que há: nada! Estás sozinha de novo. E eu voltei para ti."
(Paro de baloiçar.)
"- Eu nunca te irei abandonar...mesmo que penses que me fui, eu vou estar sempre à espreita. 
À espera dos teus falhanços, dos teus passos em falso, dos teus deslizes...
daqueles alturas em que a máscara estala e tu choras, 
naquelas alturas em que te odeias e desejas morrer.
Estarei sempre aqui para ti. Sou a tua única amiga.
Por isso anda aqui, deixa-me abraçar-te e olhar-te nos olhos.
És minha. Nasceste só e vais morrer só. Nos meus braços."
(Desisto.)

Monday, February 17, 2014



Há chaves que se queriam perdidas para sempre e baús que se queriam cerrados por eternidades;
há dores que, mesmo antigas, se juntam, em catadupa, a novas mágoas contidas quando se lhes abre a porta;
há momentos em que se revisita a caixa de Pandora, inadvertida ou masoquisticamente, para a encontrar sangrando;
há dias em que as lições que achávamos aprendidas de vez se tornam amnésia...e não cair deixa de ser opção.

Felizmente há chão que nos segure. Quase sempre. O abismo pode esperar.

Saturday, February 8, 2014



- Acorda...
- ...
- Acorda...
- Hum...? 
- Acorda, vá...
- Não...ainda não é hora...não quero...habituei-me ao negrume e à paz...
- Não podes hibernar para sempre...
- Ora, porque não?
- ...
- Então?
- Tu sabes bem porquê...
- Enganas-te...se soubesse já teria regressado.
- Não...
- Não?
- Não...tu sabes bem porquê...e sabes bem para onde vais...tens é medo.
- Medo?
- Sim, medo. Medo que o teu futuro seja mais solitário do que o presente no qual descansas.
- ...