Tuesday, May 7, 2013


Quanto tempo dormi?
Uma noite? Um ano? Uma década?
Onde está a minha vida?
Onde estão as papoilas estoiradas que me enfeitavam o peito,
onde estão os dentinhos pequeninos daquele sorriso de menina,
onde estão aquelas mãos que quebravam o papel com tinta,
onde está quem um dia quis mudar o mundo?

Onde estou eu?
O que espera esta alma velha agora?
Este corpo acidificado e trôpego?
Já fui tanto, mas tão pouco.
Mil anos perdidos...mil anos inventados, sonhando psicadelicamente,
sofregamente...tombando na pressa de viver...
não vivendo nada.

Quanto tempo dormi?
A vida toda.



Papéis. 
Uma pilha deles. 
Memórias. 
Tombadas ao acaso em retalhos de risos e lágrimas.
Histórias. 
Novelas. 
Cantigas. 
Mentira ou verdade? 
Quem sabe...
Sou mestra de sentimentos.
Invento-os, construo-os com carinho...
Mas derrubo-os sempre no final,
pois não passam de enredos intrincados.
De falsidades de uma pomba que não aprendeu a voar...
e que ainda não encontrou o que procura...


Monday, April 29, 2013



Adeus. Fui quase feliz nos teus braços... Girei, sonhei, acreditei.
Tentámos com todas as forças, aproveitámos cada segundo sem temor, sem certezas...
Mas a história que contámos não era ainda a nossa derradeira...
Esperam-nos novas aventuras, de vidas finalmente separadas, ou então simplesmente não agrilhoadas pelo rótulo de "amor"...
Guardo-te com carinho no peito, como àquele menino que, um dia, tecera sonhos impossíveis comigo...
Somos crescidos agora e temos de dizer adeus...
Não choro mais, porque não me arrependo de nada...

Sou um pássaro...e os pássaros não descansam até encontrarem o seu ninho...
Voo agora sem pressas, saboreando o vento...ele estará aí algures...

Thursday, March 7, 2013



Não sei...
Não sei dizer se sou eu quem se auto-destrói.
Ou se é a solidão.
Ou se sou eu quando estou só.
Ou se és tu...
Não...não poderias ser tu!
O meu mal vem de dentro...
desta alma descarnada que se quer consumar comendo-me,
estrangulando os meus sonhos com garras de ossos marfinosos... 
Não, definitivamente não és tu!
Este sufoco,
esta ânsia de ser feliz não o sendo,
já eu senti,
acompanhou-me no ventre de uma mãe que não me queria,
e fez-se lágrimas no peito de uma menina que só queria encontrar-se...
perdendo-se da vida.

Monday, February 25, 2013



Sou apaixonada por mim mesma, acima de todas as coisas...pelas manias incompreensíveis...pelas maluquices...pela fragilidade de menina-mulher...pelo espírito forte...pelos olhos grandes demais...
Sei hoje que esta fera que por vezes berra...que vive apaixonadamente...que sofre, que tomba, que se arrasta teimosa, não é compreendida por ninguém senão eu! Ninguém é capaz de me amar como eu me amo, porque só eu conheço esta morada...não há bússolas que guiem para o meu casulo, para as minhas mil camadas, para os segredos que não conto a ninguém. Sorrio, rio, rodopio...mas cá dentro moram génios desolados e velhinhas enrugadas, comerciantes de seda e marinheiros de água salgada...tormentas, dias de sombra, pedaços de paraíso...vozes, tantas vozes, tantas vontades...tantos sonhos partilhados, tanta ingenuidade despedaçada, tantas fantasias de fada...E eu sempre a fingir, a falar cada vez mais alto, sempre a desmentir as tristezas...como se ser infeliz fosse o maior veneno do mundo...Não é.

Sunday, February 24, 2013



ph. by Nishe

"Love,
I don't know how many times I've read your last letter. I know the words by heart now; they're embedded in my skin. I keep our souvenirs from the last year nearby. I lay them out often to recall our steps, to etch the memories into my mind. I touch each one and whisper your name, move on to the next. Do you remember the meadow in April, sheathed in morning fog? Do you remember the stepping stones in the river? I keep things from before you even knew who I was, when I could only watch from a distance. These I brush over as well, until I am lost inside you, and certain that our story will never fade from my mind.
The nights are long and the depth of the ache cannot be measured. The north winds have returned, leaving behind little trace of summer. I often wake to a world of delicate frost. You are not here, and the daytime clouds curtain the sky just enough to hush the light—the emptiness is complete.
This morning, as with many mornings, I opened my eyes and for a moment expected to find you next to me. All day now I've been thinking of you. But it's getting darker now, and I'm afraid I won't be able to sleep tonight.
How long has it been since I last saw you, love? A month? A year? A thousand? Return to me soon.
Yours —for all time,
~A.D."

by Jesse Michael Renaud

Quando comecei a ler esta carta, não mais consegui parar. Lembrei-me de nós instantaneamente...
Recordei a separação...a raiva...a incompreensão...a saudade...a difícil tarefa de te esquecer!
Não consegui. Não propriamente. Camuflei-te, escondi-te, guardei-te bem fundo, a ganhar bolor.
Não te queria ver, não queria falar contigo...odiava-te por me abandonares!
Por teres deitado tudo a perder...por seres uma criança imatura que me tinha deixado no momento em que mais te amava!
Ainda hoje, quando olho para ti, vejo aqueles dois meninos que descobriram o amor juntos
e nem se apercebiam de quão raro era aquilo que sentiam...
Admiro a nossa inocência...e as vezes gostava de recuperá-la...
Gostava de ver nos teus olhos a pureza de outrora, antes de te ter magoado e endurecido...
gostava de te olhar sem a mais ínfima desconfiança, sem medo de acordar um dia e saber que já não me queres, uma outra vez...
Estamos diferentes agora. Mais velhos...mais sofridos...mais desconfiados perante um mundo que não dá tréguas!
Queria certezas de que os nossos sonhos de há tantos anos se irão concretizar...mas não mais as posso ter!
Só posso esperar, pacientemente, pelo que a vida nos quererá oferecer!

Voltaste para os meus braços...só quero forças para não te deixar ir embora de novo!

Friday, November 30, 2012



Deixo-me prender por ti...como jurei que nunca mais deixaria.
Magoámo-nos tanto outrora...por coisas que parecem tão pequenas agora...
tentámos enganar sentimentos, mascará-los, disfarçá-los, moldá-los...
Mas há marcas que nunca saram e emoções que não se diluem...
É por entre cordas bem apertadas, ligadas directamente ao teu peito,
que calmamente me deito sobre o que desprezámos durante tanto tempo,
e fecundo as sementes daquilo que ficou por dizer e fazer com risinhos tímidos,
com palavras entrecortadas, com apertões vigorosos às almofadas que fazem a vez na tua ausência...
Volta depressa.